Leva-me numa roadtrip pela Andaluzia

Aproveitámos a pausa do Carnaval para fugir da loucura carnavalesca de Sesimbra e ir dar uma volta ao país vizinho. Inicialmente, pensámos ir a Salamanca e passar na estância de esqui Bajar para as miúdas brincarem um pouco na neve. Mas as baixas temperaturas desencorajaram-nos. À última hora, alterámos a rota; seguiríamos para sul: Córdoba, Málaga e Sevilha.

Foram uns dias incríveis, cheios de sol e com direito a tirar o casaco durante as horas de maior calor. Depois do queixume inicial (ora estavam fartas de andar de carro, ora estavam fartas de andar, ora a comida não era do agrado, ora estavam cheias de fome, ora queriam beliche, ora não queriam beliche…), as lamúrias pararam como que por milagre e, quando chegámos a Sevilha, as miúdas já estavam completamente adaptadas (ou conformadas) ao nosso estilo de viagem.

Foram umas férias de que não nos vamos esquecer tão cedo. Felizmente, não por algum acontecimento mau e marcante, mas por ter corrido tudo tal como planeáramos e por termos sido sempre brindados com sol e calor.
Comemos uma tortilha de batata que mais parecia um bolo e serviram-nos torradas com a manteiga em forma de bola de gelado. Comemos uma paella que, não sendo a melhor que já comemos, naquele dia nos soube pela vida. No último dia, comemos uns churros molhados em chocolate quente que, para as mais pequenas,  entraram logo para o top das coisas de quem ais gostaram das férias. Passeámos pelas ruas do casco viejo, assistimos a espectáculos de sevilhanas de rua e a um cortejo de Carnaval. Fizemos piqueniques à beira de lagoas e em parques infantis desertos e percorremos Málaga de bicicleta e trotinete. Em Sevilha, andámos de barco e alugámos uma ciclotour no Parque Maria Luísa. Perseguimos bolas gigantes de sabão e comprámos azeitonas no mercado. Ficámos num bed&breakfast fantástico, cujos anfitriões, o Carlos e a Rosa, nos receberam como reis. A Rosa, tendo vivido em Lisboa e sentindo um grande carinho pelos portugueses, abraçava-nos quando chegávamos ao pequeno-almoço como se nos quisesse meter no coração e foi incrivelmente doce com as miúdas. Se houve alguma coisa que ficou por fazer nestas férias foi, talvez, explorar um pouco mais Málaga. Mas não faltarão, decerto, mais oportunidades.

Em Córdoba, na Ponte Romana
Vista para Málaga
Málaga sobre rodas
Uma tortilha por dia
Passeio de barco na Plaza de España
Uma perdição.

Fazer coisas novas com gangas velhas

1.Tinha um par de calças prontos para ir para o lixo, mas decidi dar-lhes uma última oportunidade: cortei as duas pernas na altura desejada (1), cortei o entrepernas pelas costuras, coloquei, por baixo, tanto à frente como atrás, o tecido novo (também ele reutilizado) em forma de trapézio (2), costurei o gancho das calças para não formar um bico (3) e cosi o resto directamente em cima da ganga (4). Se coserem direito com direito, como eu fiz em primeiro lugar, sem pensar, a saia faz um formato tipo “cauda de baleia” que não é coisa que queiram ter na parte da frente da saia…

Depois da bainha feita, fiquei com uma saia nova.

2.A Inês deixou de ter calções de ganga que lhe sirvam. Ela adora calções. Por outro lado, odeia calças de ganga, que tem mais que muitas… Peguei numas rasgadas no joelho, cortei pela altura desejada e cosi uma tira por dentro, que dobrei depois para fora e cosi, como um forro exterior. Foi, novamente, o sucesso total!

Novo desafio – nadar

Passou-me uma coisa pela cabeça e decidi que, este ano, vou participar na Travessia da Baía de Sesimbra. A ideia não foi minha, foi do Tiago, que é homem dos desafios malucos, mas pareceu-me quase imediatamente uma boa ideia. Apesar de não o ter admitido logo, pois eu tenho um bocado de medo de peixes, deixei-me convencer pelo meu histórico de desafios pessoais. Aquela vez em que saltei para a água no Tofo, em Moçambique, para ver o tubarão-baleia foi dos momentos mais tenebrosos da minha vida. Mas, lá está, mesmo assim saltei. E uma vez deixei morrer o meu canteiro por lá morar uma família de gafanhotos e me ter recusado a continuar a regá-lo, mas agora tenho um talhão nas hortas urbanas com tudo o que implica de convívio com bicharada. Andei 23 anos a esconder as minhas cicatrizes até ao dia em que comprei uns calções e os usei efectivamente. Passei 74 dias sem comer açúcar, incluindo no Natal, e ouvi toda a gente à minha volta, até a minha médica, a dizer que não eram capazes de tal façanha. Mas eu fui. Portanto, eu tenho isto em mim: uma força qualquer que me impele a enfrentar as coisas das quais passei toda a vida a fugir. Isto é mais ou menos recente, veio com a idade, ou com a maternidade, ou simplesmente desde que tenho ao meu lado uma pessoa cheia de autoconfiança. Então, porque não continuar a aproveitar este dom?

E como tenho andado a nadar muito (umas das coisas que mudei na minha vida, quando decidi que queria abrandar, foi ter trocado o treino altamente intensivo e desgastante do ginásio por yoga e umas braçadas descontraídas que me limpam a alma e ajudam a manter o corpo activo), é mesmo o momento perfeito para me meter nesta aventura. Ando a nadar duas a três vezes por semana e tento fazer sempre, no mínimo, 1000 metros, em 40 minutos. A Travessia é de 1500 metros e só tenho 30 minutos para terminar depois de o primeiro concorrente ter chegado ao fim. Ou seja, tenho de fazer 1500 metros no mesmo tempo que faço agora 1000-1100 m. Será que consigo? Tenho 9 meses para treinar, por isso essa parte não me assusta. Tento imaginar como será nadar em águas escuras e geladas com peixes por baixo de mim e sei que tenho muito treino mental para fazer. Mas, neste momento, não duvido de uma coisa: vou ficar aterrorizada, mas vou conseguir. E acho que é um excelente desafio!

Saia das raposas

quase um ano que não lhe fazia uma saia. Mas agora pediu-me uma saia nova, com raposas, que ela ainda adora. Foi mais ou menos assim:

Inês – Mamã, porque é que tu tens de ir para a costura às segundas-feiras? Assim já não vens connosco à natação!
Eu – Eu vou à costura assim como tu vais à natação e à capoeira, para aprender coisas novas. Continuo a estar convosco todos os outros dias, só à segunda é diferente.
Inês – Mas eu não quero que tu vás à costura.
Alice – (para a Inês) A mamã vai à costura para aprender a fazer saias e vestidos, não percebes, ó? (vira-se para mim) Mamã, fazes-me uma saia nova?
Eu – Posso fazer. Tens algum desejo especial?
Alice – Uma com raposas.

E assim foi. Por sorte, tinha lá um tecido (seria da M is For Make?) com raposas que deu mesmo à justa. Na verdade, não consegui fazer muita roda e, por isso, acho que não ficou tão gira como a saia dos elefantes, mas ela gostou à mesma (e demorei 30 minutos a fazê-la!). Só não se deixou fotografar, o que resultou nisto:

Abrandar. Parar. Respirar.

Já sabem que o ano, para mim, não começou da melhor maneira. Mas a morte do Dexter foi apenas a gota de água porque, na verdade, não me tenho vindo a sentir no melhor de mim desde há alguns meses. Na altura, andei por vários médicos, convencida de que algo de errado se passava com o meu corpo.  Mas para além de uma bexiga hiperactiva (que já me dá que fazer) e uma insulino-resistência perfeitamente controlada, eu estou de perfeita saúde. As oscilações de humor não podem ser justificadas com a tiróide e também não será a tendinite a desprover-me de toda a vontade própria. Tenho muitos dias em que me esforço por me manter à tona de água, como já o disse aqui, e, se pudesse, passava os dias deitada a ler. Há dias que nem isso, tal é a desvontade que se me acomete.

Felizmente, não sou pessoa para me deixar andar e costumo ter muita noção de mim própria. Autoconsciência. Tentei diagnosticar o problema, mas acabei por me afundar na culpa de achar que não tenho razão para me sentir deprimida. Tenho uma boa vida. Tenho a profissão que sempre quis, gosto do que faço, sou bem-sucedida e confio nas minhas capacidades. Tenho uma casa confortável com espaço exterior. Não apanho trânsito para o trabalho, não passo muito tempo a conduzir. Tenho duas filhas lindas e saudáveis. Tenho um marido maravilhoso. Não sou rica, mas também não ando a contar os tostões, o que me permite não estar sempre preocupada com questões financeiras. Tenho uma boa relação com a maior parte das pessoas que são importantes para mim: família, amigos, comunidade da vila. Estou integrada e gosto de viver aqui. Tenho hobbies e interesses, viajo de vez em quando e até tenho uma horta. Pergunta para queijinho: então, o que me falta?

Pensei muito nisto e a única conclusão a que consigo chegar é: não me falta nada. Tenho é coisas a mais. Com coisas, não estou só a falar de coisas materiais, mas também. As coisas físicas, a roupa, a tralha, a desarrumação, complicam-me com os nervos e pesam-me na rotina. Penso frequentemente que, se tivéssemos menos roupa, com certeza eu teria menos roupa para lavar, dobrar, arrumar. Se as miúdas tivessem menos brinquedos, desarrumariam menos. É este o raciocínio. Mas estou também a falar das coisas abstractas que me ocupam os tempos livres, como eventos, compromissos e actividades. Às vezes leio artigos sobre isto de andar sempre a correr, de querer ir a todas, de ter de fazer um visto em tudo. Connosco dá-se o caso de termos muito amigos (e que tal se desses graças por isso?) que gostam de estar sempre em festa, mas também se dá o caso de acabarmos por sermos nós a organizar muitos convívios em nossa casa. São as festas de anos, é a sardinhada atual, foi o Magusto na Horta, ou, às vezes, só porque sim. Não é preciso referir a parte boa disto, as vantagens que há em estarmos sempre rodeados de amigos. Mas há o reverso da medalha que é o trabalho que isto dá: o antes, o durante e o depois. Antes, é preciso preparar a comida e arrumar o espaço. Durante é preciso garantir que a comida chega, ir repondo os talheres e os guardanapos, ir recolhendo os copos sujos, ir buscar mais gelo, confraternizar nos entretantos, como boa anfitriã. Depois, a parte mais chata, é preciso limpar, lavar a loiça, arrumar. Às vezes, demoramos alguns dias nesta fase… Enquanto que o Tiago faz isto tudo com uma perna às costas, sendo um organizador de eventos nato como é, eu não. É quase sempre uma fonte de stress. Algumas coisas já vão sendo automáticas, claro, mas tanta festa começa a pesar-me, confesso. Quero continuar rodeada de amigos, sim, mas não precisa de ser com tanta frequência, nem precisa de ser sempre cá em casa.

O mesmo se aplica a outros eventos sociais. O Tiago diz-me sempre que, se as pessoas nos convidam, é porque fazem questão que nós vamos. Claro que sim, percebo isso perfeitamente. Mas quando isso implica desdobrarmo-nos em três para comparecermos a três eventos num só dia (sim, já aconteceu…), não será um bocadinho demais? E o nosso tempo em família, a quatro? E o tempo passado em casa, simplesmente a descansar, a brincar ou a arrumar a roupa (tinha de vir…)? Num destes eventos organizados por nós, houve duas pessoas que não vieram pela simples razão de precisarem de descansar e ficar em casa. Foi esta a razão que me deram e não tenho motivos para duvidar da sua validade. Aliás, confesso que fiquei invejosa. Eu também preciso de ficar em casa a descansar, pensei eu, mas não tenho coragem de o dizer como justificação para não comparecer a um evento. Mas os amigos devem compreender estas coisas, certo? Os amigos compreendem que não somos super-heróis dotados com o poder da omnipresença.

Há tempos mandaram-me um artigo em alemão sobre o stress dos tempos livres. É uma contradição, diz o autor, que o tempo que usamos para recuperarmos do stress do dia-a-dia acabe por ser, afinal, uma fonte de stress adicional. Achei piada à comparação que ele faz entre tentar marcar um encontro com um amigo e arranjar consulta para o ortopedista: ambos só têm vaga daqui a seis meses! Já me aconteceu olhar para a agenda e perceber que tenho todos os fins-de-semana ocupados durante os próximos três meses. Tem mesmo de ser assim? Deixa de haver espaço para a espontaneidade, para fazer o que nos dá na gana, para passarmos a tarde a fazer trabalhos manuais, para nos demorarmos aqui e ali ou ir ver uma exposição que acabou de inaugurar. Tem mesmo de ser assim ou será que podemos encontrar um equilíbrio entre os eventos sociais e a necessidade individual de espaço para nos libertarmos de horários e calendários, da pressa, das obrigações? Afinal, o nome “tempos livres” indica precisamente isso: liberdade, inexistência de obrigações, direito à escolha, simplesmente estar.

Atenção: com este discurso todo, pode não parecer, mas é claro que eu aprecio o tempo passado entre amigos, mesmo que isso implique uma correria constante. É como diz o autor do tal artigo alemão: o problema não são os outros, o problema sou eu, porque não tenho coragem de dizer não, de dizer que também preciso de tempo para mim. Temos medo de desiludir os amigos ou que eles deixem de nos convidar. Ou, então, somos daqueles que sentem a obrigação de fazer qualquer coisa. Não temos planos para sábado à noite? O horror, o caos, a calamidade! Sim, quando tens 20 anos. Mas quando tens 37, duas filhas, uma agenda cheia e, de repente, te apercebes que as miúdas vão dormir à avó, o teu marido foi de viagem e tu não tens planos para sábado à noite, como é? Aconteceu-me a semana passada. E sabem o que é que eu fiz? N-a-d-a. Absolutamente nada. Fiquei em casa, cozinhei, vi 3 episódios seguidos de uma série e fui para a cama ler até o livro me cair em cima da cara. E soube-me tão bem!

Posto isto, tenho pensado muito neste assunto. E sinto que, volvidos 25 dias do início do novo ano, encontrei o meu objectivo para 2018: abrandar, parar, respirar. Não necessariamente por esta ordem, mas talvez haja uma lógica em seguir esta ordem. Sinto que é aquilo de que preciso neste momento. Tenho lido algumas coisas sobre isto de viver em modo lento, descobri blogues novos que me inspiram, e já delineei um plano mental para conseguir alguma calma na minha vida. Já pus em prática algumas coisas, outras ainda estão para vir, outras serão um work in progress permanente. Gostaria de falar sobre elas num outro post, para não vos maçar que este já vai longo. Espero ter tempo, ia agora dizer. Oh, mas é claro que irei ter tempo. Afinal, o ano ainda agora começou e eu (já) não tenho pressa.