Esperava muito deste livro. Já muita gente lhe tinha gabado a espectacularidade e o facto de ser tão diferente do que por cá se faz. Mas eu li e não fiquei abismada como esperava. Não me caiu o queixo, não tive vontade de ir a correr comprar outro livro dele, não me apeteceu gritá-lo aos quatro ventos. Achei, ao contrário do que me diziam, um pouco mais-do-mesmo. Quer tanto ser diferente que acaba por ser igual. Com talento e mestria, confirmo, mas tão somente não o assombro que esperava. É a tal coisa das expectativas. Mas sou eu.
6. História do Novo Nome, volume II, Elena Ferrante
Este, por outro lado, foi aquele assombro – por fim! Elena Ferrante é a diva da literatura contemporânea, não me venham com tretas. Quando escrevo estas linhas, já só me falta ler o quarto volume. Achei a saga tão intensa que precisei de fazer uma pausa – acreditam se vos disser que já sonhava com a Lila e a Lenú? Podem ler aqui o que eu achei do primeiro volume deste conjunto de quatro livros sobre a história de duas amigas e de um bairro napolitano cheio de histórias e estórias, brigas e intrigas, encontros e desencontros. Se eu já tinha gostado do primeiro volume, este então superou qualquer expectativa. É a melhor coisa que já li nos últimos tempos. E mais não digo porque vocês têm de ler.
7. História de Quem Vai e de Quem Fica, volume III, Elena Ferrante
O terceiro volume aconteceu logo a seguir. Maravilhoso e intenso, muito intenso, Ferrante leva-nos desta vez para fora do bairro napolitano onde cresceram, para acompanharmos a vida das suas protagonistas, que agora já são mulheres, casadas, mães, para um mundo mais pesado e cru das coisas que tomam o rumo da irreversibilidade, onde esta amizade tão forte entre as duas mulheres parece não ter mais lugar. Vão uns e ficam outros. E, no final, tudo parece mudar. Ou não.
Não me posso queixar do tempo que tenho. Posso não ter tempo para actualizar o blogue todos os dias, ou para costurar tudo o que quero ou ainda para ler todos os livros que quero, mas tenho tempo para ir ao ginásio, tenho tempo para as ir buscar à escola, tenho tempo para lhes dar banhos demorados e lhes ler histórias à noite, tenho tempo para cuidar da horta (mesmo que isso signifique levantar-me primeiro do que toda a gente).
Ainda assim, com todo este tempo nas mãos, muitas vezes sinto que nunca paro. Será um defeito ou uma qualidade isto de não conseguir estar quieta, isto de achar um desperdício de tempo passar a tarde de domingo em frente à televisão, isto de odiar aqueles almoços de família intermináveis que juntam o almoço ao lanche ao jantar, isto de ver uma série ao serão sempre a fazer qualquer coisa, seja a dobrar meias, seja a fazer crochet, seja a debruar mantas de retalhos? O pior é que tendo para o queixume. Porque mesmo não parando quieta por opção, não consigo deixar de amaldiçoar a roupa que ainda tenho para estender às onze da noite.
A minha visita aos nossos amigos polacos e a minha observação de como encaram a parentalidade e as tarefas domésticas inerentes a um agregado familiar de seis pessoas (cujo post tarda, mas não está esquecido) despertaram em mim uma maior consciência do queixume típico de tantos portugueses que conheço. E do meu também, claro. Aquele queixume que nos leva a dizer, a um domingo, “Já sabes, a correria do costume” em resposta a uma pergunta tão simples “Como vais?”. Mas porquê? Porque é que gostamos tanto de nos vangloriar de andar sempre a correr? Desde quando é que o maior sofredor é o mais feliz? Desde quando é que precisamos de competir pela infelicidade de não termos tempo para fazer tudo o que queremos?
Curiosamente, numa daquelas coincidências que a vida nos presenteia às vezes, comprei o livro “Viver devagar” da Maria Cordoeiro, autora do blog seismaisdois, que saiu no início do mês, e logo nas primeiras páginas leio esta frase:
Ninguém pára para pensar que esse tempo, que dizemos não ter, é tempo de vida que perdemos.
Também acho. O tempo que nos passamos a lamentar é tempo que perdemos sem fazer nada de proveitoso. Além disso, quanto mais dizemos que não temos tempo ou que andamos sempre a correr, mais acreditamos que é verdade. E, por isso, nunca chegamos ao ponto de “repensar” o nosso tempo, como diz a Maria.
No meu caso, urge repensar o queixume e a forma como encaro e rentabilizo o meu tempo. E urge ler este livro que já me cativou logo nas primeiras páginas. Acredito mesmo que é possível viver a vida mais devagar e sem queixume. Só gostava de conseguir coordenar pensamentos com acções. Tenho a certeza que, assim, pararia de me queixar.
Já vamos em Maio e tenho, nada mais nada menos, 12 livros lidos de que vos quero falar. Serão 13 por altura de ter acabado esta série de posts. Não percamos mais tempo, então.
0. 19Q4, Haruki Murakami
Este livro não conta para a contagem de 2017 porque o comecei a ler em 2016. Foi com ele que passei o ano, figurativamente falando, e não podia haver melhor companhia, Já tinha falado dele aqui. Melhor, só mesmo lendo o livro.
O centenário que fugiu pela janela e desapareceu, Jonas Jonasson
Já por duas vezes tinha tentado ler este livro. Isso não é lá muito abonatório, pensarão vocês. Pois. A verdade é que não é um grande livro, sendo até mesmo um pouco tonto, mas tem a sua piada. A história é, no mínimo, insólita: no dia em que faz 100 anos, Allan Karlsson decide fugir e, por causa de um mal entendido na estação de autocarros, vê-se envolvido numa embrulhada de todo o tamanho. Vai-se a ver e o velho não é tão inocente assim, mas isso são outros quinhentos.
2. Os Assaltos à Padaria, Haruki Murakami
Depois da maluqueira sueca, precisei de voltar à loucura ordenada do mundo murakamiano (já alguém cunhou esta expressão?). “Os Assaltos à Padaria” faz parte da colecção do livro “Sono”, de que também falei aqui, mini histórias com ilustrações maravilhosas. Li-o numa hora e soube-me a pouco. Vale pela encadernação. Gosto de livros bonitos.
3. Anjos Perdidos em Terra Queimada, Mons Kallentoft
Um policial nórdico para desenjoar. Li o primeiro volume o ano passado e gostei. Este segundo volume estava esgotado em todo o lado e só o consegui encontrar através do OLX, tendo feito a transacção debaixo de um sombrio túnel de prédios em Almada. Não me entusiasmou muito ao início, mas no final tirou-me o sono. Passa-se num dos Verões mais quentes de que a cidade de Linköping tem memória, com as florestas em chamas e as adolescentes da cidade em perigo. É que primeiro uma adolescente foi encontrada num parque, nua e coberta de sangue, mas viva. Mas depois começam a aparecer mortas… E a inspectora Malin Fors vai ter de chamar a si todas as suas forças…
A minha primeira vez na Polónia foi marcada por uma virose infernal e pela primeira maratona do Tiago. Ele, com conjuntivite no olho direito que por pouco não o impedia de correr, eu com conjuntivite no olho esquerdo, febre e uma dor de garganta tão forte que me fez pensar que, quando gozamos de boa saúde, não sabemos dar valor a coisas tão simples como uma garganta sem dores que nos permite fazer coisas que consideramos adquiridas, como engolir e dizer os sons “g” e “rr” sem parecer que temos um ferro em brasa enfiado goela abaixo.
O frio que se fazia sentir não terá certamente ajudado, mas o desconforto lá foi passando com os dias e com a receita da médica polaca, tendo conseguido desfrutar ainda de um terço das minhas férias.
A maratona foi cumprida em tempo recorde para um estreante e celebrada num restaurante típico de pierogis (os polacos que me perdoem a comparação: uma espécie de raviolis doces e salgados servidos com molho) e zurek (lê-se jurek, uma sopa ácida com salsichas e cogumelos) servidos por meninas vestidas em trajes típicos e semi-indecentes.
Passámos os dias seguintes a visitar a cidade, que eu ainda mal conhecia, apesar de lá estar há 4 dias, a cidade velha e os magníficos parques, o jardim nos telhados da biblioteca nacional e os jardins do rei onde tentámos enganar um esquilo com uma castanha podre. Estátuas de Chopin por todo o lado a atirar-nos à cara a nossa incultura musical, pois que Chopin era afinal mais polaco do que francês, e muitas alusões aos judeus e à II Guerra Mundial. Por azar, não conseguimos ver o Polin, o museu sobre a história da enorme comunidade judaica polaca que havia antes da Guerra, nem o Museu da Revolta de Varsóvia, pois fecham a dias de estarem abertos e trocaram-nos as voltas.
De Varsóvia guardo uma cidade não muito bonita, mas moderna, ampla, espaçosa e funcional. Em termos arquitectónicos é pouco interessante por ter sido praticamente destruída na Guerra e reconstruída às mãos do governo soviético. Sempre ouvi dizer que Cracóvia é muito mais bonita, mas disso só posso mesmo dizer o que de outros ouvi.
Dos polacos guardo um povo bonito, simpático, heróico por falar tão bem uma língua impronunciável (palavras com cinco consoantes seguidas são só um exemplo). Como fomos visitar os nossos amigos polacos, tivemos a oportunidade de conhecer dois lados de Varsóvia: a turística e a local, com alojamento em casa dos nossos amigos, num bairro residencial de jovens casais bem na vida, e visitas guiadas aos melhores restaurantes da cidade aonde o Lonely Planet não nos levaria.
Mas o mais interessante desta viagem, para além dos tecidos típicos que trouxe e que merecem um post por si só, foi a minha observação do dia-a-dia dos nossos amigos com 4 filhos. Sim, leram bem. Estes nossos amigos polacos têm 4 filhos e o seu dia-a-dia não é caótico, nem à base de gritos, queixumes ou revirar de olhos. Mas para não confundir assuntos e fazer a devida homenagem a algo que me marcou profundamente, falarei sobre isso noutro post. Deixo-vos por enquanto com algumas fotos da nossa estadia em Varsóvia.
Varsóvia, num dia de muito vento e frio, vista do terraço panorâmico do Palácio da CulturaPalácio da Cultura de VarsóviaEstado febril na estação de metro com nome impronunciávelCozinha polaca de autor, menu com tudo isto por uns 15 €, que incluía sopa com ervas que nós não temos, bife tártaro e mão de vaca que comi sem saber…Pierogis, estes provavelmente de carne.A maravilhosa sopa żurek. Comi três vezes.A cidade velha.No parque Łazienki.Tulipas por todo o lado, aqui a caminho do Monumento ao Soldado DesconhecidoNas muralhas do castelo, cidade velha. Não sei quem são estas senhoras.
Os polacos consomem imensos fermentados. Aqui num restaurante kosher.
Em polaco, diz-se “basha basha basha” para chamar um esquilo. E eles vêm, à procura de comida.
Costumo dizer que não tenho muitos amigos. Dos amigos da faculdade fui-me afastando, ao longo dos anos, não mantendo contacto pessoal regular com ninguém em particular (apesar de haver algumas pessoas que guardo no coração e com quem me encontro algumas – poucas – vezes por ano como se nunca nos tivéssemos separado) e os amigos que fiz pelo mundo ficaram lá, pelo mundo, longe de mim, na Alemanha, em Espanha, na Austrália, com as suas vidas ocupadas e os seus afazeres que vamos tentando actualizar no Whatsapp.
O Facebook também ajuda a conservar o contacto com muita gente, mas são poucos aqueles a quem possa chamar amigos – aqueles a quem posso telefonar num aperto que é mais ou menos assim como distingo os amigos a sério dos outros. Quando conheci o Tiago, conheci também os seus amigos. E tantos que eles eram. Dez anos depois, criei laços, mais fortes com uns do que com outros, como é natural, mas todos eles fazem parte de dez anos de vida em comum, dos dez anos mais importantes da minha vida, aqueles dez anos em que fui mãe, em que me libertei, em que me conheci melhor, em que me superei. Ainda assim, penso muitas vezes que, fora algumas excepções, eles são amigos do Tiago e que, se algum dia nós nos separarmos, os amigos irão com ele também. Foi por isso – mas também por termos todos as agendas tão preenchidas e, muitas vezes, exigir um esforço sobrenatural para conseguirmos estar em todo o lado (tantas vezes que já falámos nisso) – que pensei que ninguém viria à minha festa de anos (esta minha insegurança que me acompanha). Também por causa disso, falhei algumas pessoas que demorei demasiado tempo a convidar e depois achei que ficaria mal convidar em cima da hora. Ainda assim, houve muitos amigos que quiseram vir celebrar comigo os meus 37 anos de vida, no sábado passado, dez anos depois de nos termos conhecido. Aos 27 eu era diferente, eles também. Estamos todos muito mais crescidos e gratos por tudo o que a vida nos tem dado, e a vida dá-nos coisas boas se as soubermos aproveitar. E eu estou muito grata pelos amigos que temos.
Este era para ser um post sobre os meus 37 anos, mas acabou por ser um post aos amigos. Porque, sem eles, o meu dia de anos não teria sido tão espectacular.