Explicar a morte de um animal de estimação às crianças

Passei a semana a temer o momento em que uma das miúdas me perguntasse pelo gato (elas achavam que ele ainda estava internado) ou que lhe fizesse alguma referência inofensiva como “não deixem o frango em cima da mesa por causa do Dexter” que desencadeasse perguntas inconvenientes. Sabia que tinha de lhes contar, mas não sabia como. Recorri à Internet como faço para quase tudo e encontrei um artigo muito útil com uma lista de livros que ajudam a explicar a morte às crianças.
Escolhi o livro “Um gato tem 7 vidas“, da Luísa Ducla Soares, comprei-o e treinei para evitar chorar desalmadamente enquanto lhes lesse a história.

A literatura, de facto, pode ser de grande ajuda nas fases difíceis. Foi a melhor introdução que podia ter escolhido para dar esta notícia triste. Primeiro, elas ficaram muito entusiasmadas com a ideia de terem uma história nova para ler (= uma prenda!). Segundo, como a Inês já sabe ler e nós costumamos ler alternadamente (uma página ela, outra página eu), calhou-lhe a ela ler a última página, o que me facilitou muito a vida em termos de quantidade de lágrimas vertida. Eu sabia que não ia conseguir não chorar, nem sequer acho que os pais nunca devem chorar à frente dos filhos. Os pais são humanos, têm sentimentos, também sofrem e ficam tristes e é bom que as crianças tenham essa percepção. Além disso, chorar é normal, especialmente quando se trata de perder alguém de quem gostamos, seja uma pessoa, seja um animal de estimação.

Este livro fala sobre um gato que tem 7 vidas e as vai gastando ao longo de uma vida longa e feliz, enquanto vê a Morte ir buscar outros animais ou pessoas que morrem de causas várias, todas elas “justificáveis”. Quando chega à sua última vida, já velho e cansado, aconchega-se no colo da Morte e adormece para nunca mais acordar. Expliquei-lhes que o nosso Dexter também se tinha aconchegado no meu colo para nunca mais acordar e que tinha morrido sem sofrer e sem dar por nada. A Inês ficou triste e fez imensas perguntas, a Alice chorou um bocadinho quando percebeu que ele nunca mais voltaria, mas logo se consolou com a promessa de, numa noite sem nuvens, procurarmos a estrelinha do Dexter.

– Ele foi para o céu, não foi?
– Foi, agora é uma estrelinha…
– E qual é a estrelinha dele?
– Não sei, tem estado sempre nublado. Mas quando não houver nuvens, procuramos.
– E como sabemos qual é a estrelinha dele?
– Vamos saber, vais ver. Vamos sentir.
– Quando nos aproximarmos, ela vai brilhar mais, como se ele nos estivesse a chamar, é isso?
– Sim, é isso mesmo!

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