Deixar fluir

Hoje não vos trago “às quartas na net”, mas trago-vos uma revista super inspiradora que descobri por acaso esta semana. Chama-se Flow, é bimestral, é de origem holandesa, e é daquelas revistas caríssimas que se encontram apenas online ou nos quiosques de revistas internacionais. Em português há uma revista do género, a Calm. A Flow, que também está relacionada com criatividade e mindfulness, traz brindes para quem adora produtos de papelaria e DIY, como eu, e está recheada de ilustrações maravilhosas e artigos motivacionais. Além disso, de vez em quando lança edições especiais, livros, agendas, cadernos… (revista de culto? um autêntico negócio?)
Movida por um impulso, comprei logo dois números porque duvido que volte a encontrar exemplares à venda (pelo menos em Sesimbra nunca vi). Tem sido o meu momento calmo do dia. É um prazer apenas folheá-la. Imaginem lê-la: sem muita publicidade, ou pelo menos não daquela forma escarrapachada das revistas comuns, os artigos servem de inspiração diária quando se encontram coisas como esta: alguém se fartou das redes sociais e decidiu experimentar organizar um churrasco sem recorrer às redes sociais. Convidou, para isso, três vizinhos e disse-lhes para convidarem mais três vizinhos, cada um. Resultado: o churrasco foi um sucesso! E depois está cheia de frases motivacionais, daquelas que nos fazem revirar os olhos quando as vemos no facebook ou no instagram, mas que com uma ilustração bonita surte logo outro efeito. Ou não?

Dias assim

Não ando no auge de mim. Há dias em que acordo sem ter conseguido dormir, outros há em que me sinto desprovida de toda e qualquer vontade própria. Arrasto-me pela rua e suspiro pelos cantos. Uma unha do pé apodreceu e caiu, como caem as folhas do Outono, a pele dos joelhos escureceu, a dos cotovelos esfola e descama como se fosse um animal em mudança de pele. O humor esse, coitado, vai e vem, irritando e confundindo quem está à minha volta. São de realçar os dias em que acho que tudo está mal, mas em que não mudo nada, seguidos dos dias de culpabilização por ser incapaz de me sentir grata pela boa vida que tenho. De tanto carregarem o peso do mundo doem-me os ombros em geral e o braço direito em particular, com uma dor que irradia até aos dedos e persiste e persiste e persiste.  Vou a médicos, analisam-me o sangue, ecografam-me o corpo. A tendinite já ninguém me tira, fruto de uma década a clicar no botão direito do rato (será desta que vou accionar o inútil do seguro de acidentes de trabalho??), mas para tudo o resto parece não haver explicação. As análises vão bem, pelo menos à primeira vista leiga de quem não espera pela consulta para se auto-diagnosticar. Não podendo atirar as culpas para a tiróide nem para o Outono que tarda, resta-me pensar que é como as coisas dos nossos filhos: são fases, as birras não duram para sempre, os dentes um dia param de crescer, uma noite dormem sem acordar e para trás ficam as memórias de tempos menos bons. Volto-me para a alimentação, que sei que me pode dar ou tirar energia. Enquanto não chega ainda o tempo de me virar para os chakras ou o reiki, pozinhos mágicos ou velas milagrosas, vou preparando o corpo para o reboot necessário. Recorro aos meus apontamentos de macrobiótica. Revejo receitas. Acredito que pode ser este o caminho. Sem fundamentalismos, nem detox mirambolantes, é tempo de ouvir e respeitar o meu corpo. Que, se não o fizer, receio que tenha de hibernar em breve.

Um almoço típico no Aloha. Estes cogumelos estavam especialmente saborosos!
Sumos verdes durante a manhã (este tinha espinafres, pepino, maçã, lima, pimento verde, salsa, espirulina e matcha)
Alternativa ao prato em dias de muito glúten: uma salada no Aloha.
Sopa de funcho e pêra. Parece uma combinação pouco plausível, mas é inesperadamente deliciosa. Retirada do livro Honestly Healthy.

A rotina vai ter de esperar

No outro dia, dizia a um amigo que gostava da minha rotina. Isto parece parvo de se dizer, sendo comum acusar a rotina de destruir paixões e o gosto pela vida, mas no meu caso é diferente. Eu gosto da minha rotina porque gosto da minha vida e, logo, sou feliz nela e preciso dela para manter algum equilíbrio mental. Acresce também que dizem que o meu signo faz com que seja uma daquelas pessoas que se sentem perdidas na ausência ou frustração de planos. Nestas férias senti-me assim, especialmente porque passei o mês à espera das férias sem saber se as ia ter. Quis o acaso que assim fosse este ano. Mas acabámos por ter uns merecidos dias de descanso em família que, sendo poucos, foram talvez aquilo de que eu precisava.

Pelo meio, fomos fazendo muita coisa diferente do habitual, numa espécie de staycation, como dizem os americanos, em que privilegiámos as caminhadas e os passeios em família por Lisboa. Fomos à Feira da Ladra, fomos ao MATT e à exposição Van Gogh Alive, passeámos de veleiro no meio do Tejo, fomos ao cinema, fizemos programas com as amigas das nossas filhas (bem-dito carro de 7 lugares!) e ainda descemos ao Algarve, para mergulhos em água mais quentinha e escorregadelas no parque aquático. Agora, estamos de volta, mas ainda antes de estarmos mesmo de volta (isto é, antes de a escola começar, que hoje em dia já só gira tudo à volta do calendário escolar), ainda temos um fim-de-semana inteiro de Avante seguido de uns dias em Berlim: só eu e ela. Preparo-me para a viagem a ler blogues como este e digo à rotina: ainda vais ter ainda de esperar.

Pensar na vida e na morte

Foi com muito pesar que li a notícia de que o Francisco Varatojo, o director do Instituto Macrobiótico de Portugal, tinha desaparecido no mar na passada quinta-feira, durante uma sessão de mergulho. Ainda há dois meses tinha conversado com ele e ele me tinha dito que vinha regularmente a Sesimbra fazer mergulho, que era um hobby que praticava há muitos anos e, por isso, tinha muita experiência. Algo terá corrido muito mal, porque o seu corpo foi encontrado, sem vida, na sexta-feira, ao final do dia. Tendo deixado 4 filhos, um instituto e imensos seguidores e admiradores para trás, custa-me principalmente saber que ficámos sem uma pessoa tão genuína e feliz como ele. Vi-o várias vezes no Instituto ao longo dos últimos 7 anos (a primeira vez que lá fui e que lhe fui apresentada), falei com ele poucas vezes, mas o suficiente para perceber que é daquelas pessoas que nos contagiam pela positiva. Ainda da última vez me dissera que eu tinha uma postura corporal fantástica (e agora vou ficar sem saber o que quis ele dizer com aquilo) e que gostaria de me voltar a ver em Setembro, depois de lhe ter feito muitas perguntas sobre o curso anual de Macrobiótica. Estive muito indecisa sobre se me havia de inscrever ou não (há alguns anos que penso nisto, porque a Macrobiótica não é só culinária, é todo um estilo de vida com imensas implicações em todas as vertentes da vida humana), li, reflecti, pedi opinião, mas acabei por não me inscrever (pesa o dinheiro, pesa o tempo, pesa o sacrifício familiar, pesa tudo quando temos dúvidas sobre se é mesmo isso que queremos). E agora, mesmo que um dia me queira inscrever, vai faltar a pedra basilar deste curso, a pessoa com mais sabedoria para nos ensinar sobre Macrobiótica.

Talvez me tenha custado mais porque o conheci, porque ainda há dois meses estivemos a conversar, porque tenho os seus livros e os livros da mulher e da filha, e admiro bastante o seu percurso. Custa sempre mais quando é com pessoas que conhecemos, é certo. Mas custou-me também muito porque este tipo de tragédia nos vem esfregar na cara a nossa pequenez. Num minuto estamos cá, no outro já não estamos. Nunca sabemos quando é o último dia da nossa vida. E se, na altura da nossa morte, nos apercebermos realmente de que a nossa hora chegou, qual vai ser o nosso último pensamento? Será que vamos olhar para trás e sentir que vivemos a vida que queríamos? Ou vamo-nos arrepender de cada momento que não vivemos o presente, que não agradecemos, que não dissemos às pessoas da nossa vida que as amamos? Com que imagem minha ficariam as minhas filhas de mim se eu morresse hoje? Da mãe fofinha ou da mãe que grita? E os meus amigos? Da mulher cheia de garra ou da mulher poço-de-lamentações? E o Tiago? Da mulher adorada ou da mulher amuada? Que pensamentos estes, mas talvez devêssemos, ao invés de lutar pela ascensão na carreira, lutar por conseguir uma boa inscrição na lápide. Significaria que tudo teria valido a pena.

 

(Isto deu-me que pensar, bolas.)

No mundo das ilusões

Vejo um filme sobre tudo aquilo que a indústria da comida nos faz crer que precisamos para ter uma alimentação saudável, mas que, na verdade, não precisamos ou até nos faz mal, ao mesmo tempo em que leio um livro sobre tudo aquilo que as indústrias da moda e dos cosméticos nos fazem crer que precisamos de usar para termos uma pele e cabelos saudáveis e bonitos, mas que, na verdade, nos estão a pôr doentes, e surgem-me três perguntas:

  1. Quanto mais tempo me vou deixar enganar?
  2. Em que mais é que ando a ser enganada?
  3. Quando é que me vão convencer que trabalhar faz mal à saúde e não preciso disso para viver? Isso é que era.

O Fascinante Mundo da Pele