Mont Blanc, round 2

Partiu hoje, de madrugada, para mais uma caminhada. 10 dias a andar, de mochila às costas, num sobe e desce à mercê dos caprichos da montanha, é só mesmo para quem gosta. E ele gosta – eles, que entretanto o grupo já se alargou. Eu vou ficando por cá, a segurar as pontas da família, contente por não ter de os acompanhar e feliz pela relação que temos. Ele vai todos os anos fazer uma caminhada grande? Pois vai. Mas eu também vou para retiros e festivais de música com a consciência tranquila por saber que não é um toma-lá-dá-cá. A liberdade que concedemos um ao outro não se mede pelo número de dias que cada um vai para fora, nem pelo egoistómetro dos nossos empreendimentos (é mais egoísta ir sem a família para um festival de música durante três dias ou dez para fazer uma caminhada?), mede-se cá dentro, pelo prazer que sentimos por poder proporcionar ao outro este tipo de momentos.

Por cá, a Alice já percebeu como é que a coisa funciona sempre que um dos pais está fora. As rotinas são mais relaxadas, os jantares são mais “rápidos”, as concessões são mais que muitas. É mais do que certo que vão acabar as duas a dormir na minha cama ou que vai haver bolachas para o lanche e gelados em dias de semana. É assim uma espécie de vale-tudo para facilitar a tarefa do progenitor “solteiro”.

Hoje de manhã, quando se apercebeu de que o pai já não estava, a mais nova perguntou-me, depois de um beicinho de tristeza: “Nós vamos fazer coisas divertidas, não vamos, mamã?”. Vamos, sim. Vai ser bom para todos. Uns na montanha, outros no calor – que, felizmente, parece que já chegou de vez!

Caminhada dois: do Cabo Espichel à Praia das Bicas

As imagens falarão por si, mas posso adiantar que esta foi a caminhada mais bonita que já fiz. A que correu melhor em todos os aspectos. Ajudou muito ter adquirido uns bastões de caminhada que ajudam nas subidas e descidas, a equilibrar-me e a afugentar gafanhotos (!), mas eu acho que a paisagem maravilhosa junto à falésia contribuiu para que conseguisse desfrutar durante quase todo o percurso. E chegar ao final mesmo a tempo do pôr do sol na praia superou todas as expectativas. (e ainda vimos uma raposa!)

Caminhada 2 – Do Cabo Espichel à Praia das Bicas (Meco)

Distância 8,5 km; dificuldade moderada (tem várias descidas/subidas); sentimento de assombro pela paisagem durante o percurso (0 a 10): 10; Sentimento de assombro na chegada ao final (0 a 10): 10 ao pôr do sol

Caminhar para vencer medos (caminhada um: Calhau da Cova)

Ainda não sei se já gosto de fazer caminhadas ou se já não odeio tanto. A verdade é que a minha fobia de gafanhotos me tem impedido de desfrutar o que quer que seja que as pessoas conseguem desfrutar nas caminhadas: o ar puro da serra, paisagens de cortar a respiração, a flora silvestre, as borboletas esvoaçantes, o contraste do azul do céu com o verde das árvores, o chilrear dos pássaros deliciam qualquer um!

Só que não. A única coisa que me ocupa a mente nestas caminhadas é um medo avassalador de a minha pele entrar em contacto com algum dos insectos saltitantes que por ali andam (normalmente, em grande quantidade). As poucas caminhadas que fiz com o Tiago ficaram sempre marcadas por grandes crises de ansiedade e pânico em que tivemos de voltar para trás e em que ambos ficámos frustrados, cada um na sua medida.

Mas este mês, com a ida das miúdas para casa dos meus pais durante uma semana, decidimos aproveitar os finais de tarde a fazer isso mesmo: caminhadas na zona onde vivemos: serra da Arrábida, cabo Espichel, entre muita mata e pinhal cujo nome desconheço. Não que eu tenha começado de repente a gostar muito de caminhadas. Essa não sou eu, definitivamente. Mas tenho dedicado algum tempo a tratar de me sentir mais confortável na minha pele (sim, descobri a Sandra Cisneros:

Resultado de imagem para sandra cisneros i am obsessede a resolver aquilo que me deixa desconfortável. E quando se vive no campo, se tem uma horta e se tem medo de gafanhotos, isto é coisa para nos deixar muito, mas muito desconfortáveis. Mas talvez volte a isto.

Da primeira caminhada para a segunda, que se seguiu apenas dois dias depois da primeira, vi progressos incríveis. Passei a primeira hora e meia a maldizer a minha vida e a perguntar-me como era possível gostar de caminhar por entre mato denso cheio de moscas insuportáveis, arbustos com picos e terrenos inclinados com gravilha escorregadia (qual comunhão com a natureza, eu só queria sair dali!), para, na segunda caminhada, dizer espontaneamente que a paisagem era espectacular e que estava a ser uma experiência fascinante. Talvez estejamos perante uma nova eu. Ou não. A verdade é que para hoje temos uma nova caminhada planeada e não me está a apetecer nada. Pode ser que me entusiasme com as imagens das primeiras caminhadas:

Caminhada 1 – Calhau da Cova, Arrábida (ou Trilho das Escadas)

Sensivelmente 6 km; dificuldade moderada (tem uma descida/subida considerável); sentimento de assombro pela paisagem durante o percurso (0 a 10): 5; Sentimento de assombro na chegada ao final (0 a 10): 9