Caminhar para vencer medos (caminhada um: Calhau da Cova)

Ainda não sei se já gosto de fazer caminhadas ou se já não odeio tanto. A verdade é que a minha fobia de gafanhotos me tem impedido de desfrutar o que quer que seja que as pessoas conseguem desfrutar nas caminhadas: o ar puro da serra, paisagens de cortar a respiração, a flora silvestre, as borboletas esvoaçantes, o contraste do azul do céu com o verde das árvores, o chilrear dos pássaros deliciam qualquer um!

Só que não. A única coisa que me ocupa a mente nestas caminhadas é um medo avassalador de a minha pele entrar em contacto com algum dos insectos saltitantes que por ali andam (normalmente, em grande quantidade). As poucas caminhadas que fiz com o Tiago ficaram sempre marcadas por grandes crises de ansiedade e pânico em que tivemos de voltar para trás e em que ambos ficámos frustrados, cada um na sua medida.

Mas este mês, com a ida das miúdas para casa dos meus pais durante uma semana, decidimos aproveitar os finais de tarde a fazer isso mesmo: caminhadas na zona onde vivemos: serra da Arrábida, cabo Espichel, entre muita mata e pinhal cujo nome desconheço. Não que eu tenha começado de repente a gostar muito de caminhadas. Essa não sou eu, definitivamente. Mas tenho dedicado algum tempo a tratar de me sentir mais confortável na minha pele (sim, descobri a Sandra Cisneros:

Resultado de imagem para sandra cisneros i am obsessede a resolver aquilo que me deixa desconfortável. E quando se vive no campo, se tem uma horta e se tem medo de gafanhotos, isto é coisa para nos deixar muito, mas muito desconfortáveis. Mas talvez volte a isto.

Da primeira caminhada para a segunda, que se seguiu apenas dois dias depois da primeira, vi progressos incríveis. Passei a primeira hora e meia a maldizer a minha vida e a perguntar-me como era possível gostar de caminhar por entre mato denso cheio de moscas insuportáveis, arbustos com picos e terrenos inclinados com gravilha escorregadia (qual comunhão com a natureza, eu só queria sair dali!), para, na segunda caminhada, dizer espontaneamente que a paisagem era espectacular e que estava a ser uma experiência fascinante. Talvez estejamos perante uma nova eu. Ou não. A verdade é que para hoje temos uma nova caminhada planeada e não me está a apetecer nada. Pode ser que me entusiasme com as imagens das primeiras caminhadas:

Caminhada 1 – Calhau da Cova, Arrábida (ou Trilho das Escadas)

Sensivelmente 6 km; dificuldade moderada (tem uma descida/subida considerável); sentimento de assombro pela paisagem durante o percurso (0 a 10): 5; Sentimento de assombro na chegada ao final (0 a 10): 9

Sucesso do dia

Que Buda me perdoe, mas hoje matei um gafanhoto.

Isto pode parecer parvo, cruel, desumano, ridículo, e sei lá mais o quê, mas para mim é assim como o homem ter ido à lua: um grande passo. Hoje, eu estiquei a perna e matei um gafanhoto com o pé. Claro que era um gafanhoto minúsculo, assim tipo este aqui:

mas nas fobias o tamanho do objecto fóbico é pouco relevante. O objecto fóbico existe, está lá, e o que se faz é fugir a sete pés. Ou desatar aos gritos. Ou desmaiar. Nem pensar em tocar nele, nem mesmo com a sola do sapato. Além de que, para quem não tem pernas biónicas, isto implica uma proximidade suficiente para poder esticar a perna e esmagar o bicho.
Portanto,
1) eu não fugi, gritei, desmaiei quando o vi a saltar,
2) eu voltei atrás,
3) eu tive-o debaixo do meu pé,
4) eu sorri, sobrevivi, não morri do coração.

O que vocês não sabem é que eu ando a tratar esta fobia. E quatro sessões depois, acontece isto. Este foi o terceiro encontro com mini gafanhotos depois de ter começado a terapia. Consegui inclusivamente pegar num mais pequeno ainda do que o da foto, que estava dentro de uma alface, mas assustei-me de morte quando ele saltou e deixei de o ver. Ainda assim não gritei, não fugi, não desmaiei. É claro que não sei qual teria sido a minha reacção se fosse um gafanhoto médio ou grande, mas não quero agora pensar nisso. Um passo de cada vez, um gafanhoto esmigalhado de cada vez (desculpa lá, Buda). A verdade é que eu não o queria matar. Eu não mato bichos, não mato aranhas, não mato traças, só as formigas se me atacarem a despensa. Mas, naquele momento, precisei de provar algo a mim própria, por muito cruel que pareça. E provei: que somos capazes de tudo se a isso nos dispusermos.

(Falarei desta terapia mais tarde, no dia em que conseguir ter um gafanhoto de estimação. Ou, pronto, vá, que ver um gafanhoto seja igual a ver uma mosca. É possível, ou não?)