Fazer coisas novas com gangas velhas

1.Tinha um par de calças prontos para ir para o lixo, mas decidi dar-lhes uma última oportunidade: cortei as duas pernas na altura desejada (1), cortei o entrepernas pelas costuras, coloquei, por baixo, tanto à frente como atrás, o tecido novo (também ele reutilizado) em forma de trapézio (2), costurei o gancho das calças para não formar um bico (3) e cosi o resto directamente em cima da ganga (4). Se coserem direito com direito, como eu fiz em primeiro lugar, sem pensar, a saia faz um formato tipo “cauda de baleia” que não é coisa que queiram ter na parte da frente da saia…

Depois da bainha feita, fiquei com uma saia nova.

2.A Inês deixou de ter calções de ganga que lhe sirvam. Ela adora calções. Por outro lado, odeia calças de ganga, que tem mais que muitas… Peguei numas rasgadas no joelho, cortei pela altura desejada e cosi uma tira por dentro, que dobrei depois para fora e cosi, como um forro exterior. Foi, novamente, o sucesso total!

Global Fashion Exchange Lisboa – iniciativa de troca de roupa

Quem me conhece sabe que não sou nada de modas. Dessas e das outras. Não ligo a moda, não sigo blogues de moda, nem sequer compro muita roupa. Mas este ano fui pela primeira vez à Moda Lisboa.

A razão que lá me levou foi a excelente iniciativa de troca de roupa Global Fashion Exchange Lisboa. A entrada era gratuita, o único requisito era levar, pelo menos, uma peça de roupa para troca. A roupa era pesada à entrada e agrupada em duas categorias: as marcas premium (Hugo Boss, Lanidor, Massimo Dutti, etc.) e as outras (H&M, Zara, Mango, etc.)

Por cada peça entregue, podíamos levar outra da mesma categoria. Foi assim que podia trazer 21 peças, mas só trouxe 4, porque o intuito não era repor as peças que tirei do roupeiro, mas sim dar um destino mais sustentável a roupa que já não queria. Cada vez acredito menos que os contentores da Humana sejam uma solução e não quero estar sempre a usar os mesmos canais para tentar prolongar a vida útil da roupa que já não me interessa. Além disso, pelo que li desta iniciativa, a roupa que não fosse entregue, seria entregue à I:CO e encaminhada realmente para reciclagem. Realmente para reciclagem.

A iniciativa durou apenas uma tarde (o passado domingo, das 17 às 19:30), o que me parece pouco tempo, mas pode ser que os organizadores tenham percebido que é preciso dar mais tempo e espaço a estas iniciativas e divulgá-las melhor.

Ficam algumas fotos toscas que fui tirando enquanto escolhia roupa e estava atenta ao destino que a minha roupa levava (a maior parte foi logo repescada pelos mais experientes nestas andanças), ao mesmo tempo que garantia que o segurança não se vinha queixar dos gritos histéricos e correrias das únicas duas crianças que por ali andavam. As minhas.


A entrada, onde as roupas eram pesadas e separadas por categoria.

Colocação da roupa em cabides para exposição.

Um dos meus vestidos – espero que tenhas tido uma boa viagem!


O saquinho com as minhas trocas: troquei 21 peças por 4: umas calças de ganga (desfiz-me recentemente de dois pares em mau estado que usei para retalhos), uns calções de ganga (destes precisava, sendo o “precisar” algo relativo…), um casaco para o desporto (dá sempre jeito, mas era mais ou menos dispensável) e um vestido retro que amei à primeira vista e que vou (mandar) apertar como fiz com os vestidos da minha avó.

 

Para o ano há mais!

O lugar das crianças

Eu sei que não é um tema fácil. Muitos de vocês desejariam passar por cima de notícias destas, como eu desejo passar por cima de todas as notícias que têm a ver com os refugiados ou que simplesmente me deixam desconfortável. Mas é um tema que tem vindo a captar a minha atenção e que requer uma mudança de comportamento.

A BBC fez uma reportagem clandestina sobre as crianças refugiadas sírias que ganham menos de 1 dólar na Turquia a coser e engomar roupa para marcas conhecidas como a Zara, a Mango e a Marks&Spencer. Esta reportagem vai passar hoje na BBC One e estará depois disponível no BBC iPlayer.  Podem ler um resumo aqui.

Young boy working in factory

 

Não me digam, por favor, que ao menos estão a dar emprego a estas crianças, como já ouvi noutras situações. O lugar de uma criança de 12 anos não é, não pode ser numa fábrica de roupa. O lugar de uma criança é na escola, é na rua a brincar. Qualquer outra forma de ver o mundo está simplesmente errada.

Há uns meses, decidi dar mais atenção à roupa que compro (comprar menos e saber como foi feita). Decidi comprar apenas roupa feita em Portugal ou na Europa, de preferência à mão. Tive dois deslizes que me deixaram de consciência pesada. Mas, no geral, o meu comportamento numa loja de roupa mudou bastante. Raramente tenho vontade de entrar, mas quando entro, escrutino as etiquetas tal como fazia aos rótulos da comida quando comecei a prestar atenção à minha alimentação. E já voltei a colocar muitas peças na prateleira porque, simplesmente, deixaram de me interessar. Não foi de repente, está a ser um processo, mas quando leio artigos destes ou vejo reportagens assim, fico convencida de que não há outro caminho. Roupa é só roupa. A nossa vaidade não pode servir para constantemente fecharmos os olhos à miséria humana.