Porque decidi ir trabalhar para um escritório

Faz hoje uma semana que estou a trabalhar num novo escritório. Não mudei de emprego. Continuo a trabalhar para mim, como tradutora, mas pela primeira vez tenho o meu próprio escritório, com chave e mesa para reuniões. Isto faz-me sentir-me muito adulta, mas na verdade foi só um passo no curso natural das coisas.

Estava a chegar a um ponto em que não era tanto o deixar que as coisas da casa me distraíssem do trabalho, mas sim o deixar que o trabalho me distraísse das coisas da casa. Havia sempre alguém que, de vez em quando, me perguntava como conseguia ser disciplinada ao ponto de conseguir resistir a ir estender a roupa só para me distrair do trabalho. Ora, o que eu vou dizer a seguir pode parecer um pouco pedante, mas quem me conhece sabe que eu sou altamente disciplinada e focada no trabalho. Mais facilmente deixo a roupa lavada dentro da máquina o dia todo a ganhar bolor do que falhar um prazo. Portanto, o problema não era falta de concentração e disciplina. O problema residia, entre outros, no facto de eu estar a deixar que o trabalho interferisse com tudo o resto. Além de ter a necessidade de espreitar o meu e-mail de 20 em 20 minutos, era incapaz de deixar um e-mail de um cliente por responder – não fosse o cliente achar que, se eu não respondesse às dez da noite, era porque não estava interessada no trabalho. Em contrapartida, às vezes tinha necessidade de “educar” os clientes e programava os e-mails para serem enviados só no outro dia de manhã, o que não faz qualquer sentido.

Além disso, qualquer momento de ócio ou mais calmo era aproveitado para adiantar aquela tradução. Se as miúdas queriam ficar a brincar um bocadinho na banheira depois de tomar banho, lá ia eu a correr para o computador traduzir mais umas linhas. À noite, enquanto esperava que a Alice adormecesse, ia adiantando o trabalho do dia seguinte entre as muitas chamadas da mais nova (Mamã, quero água, uma linha, Mamã, tenho ranho, uma linha, Mamã, tirei as meias, uma linha, Mamã, quero calçar as meias, já estão a perceber).

Como já antes de trabalhar por conta própria também trabalhava em casa, estava há sensivelmente seis anos neste regime: seis anos com o trabalho à mão de semear, seis anos num perímetro reduzido, seis anos sem incluir grandes interacções no meu dia a dia. Aliado a isto, o facto de o Tiago também ter passado a trabalhar em casa também pesou na decisão. Há dois anos que trabalhávamos juntos, na mesma divisão, e fazíamos tudo juntos, desde ir buscar e pôr as miúdas à escola, até ao ginásio, ao yoga, às compras, ao café, tudo. Que enjoo, pensam vocês. Na verdade, a coisa até funcionava bem. Orientámo-nos muito bem desde o início e nunca senti que andássemos fartos um do outro (é claro que arrufos todos os casais têm, nós só tínhamos de os resolver mais depressa se não queríamos ter o resto do dia estragado). O que eu comecei a sentir era que não tínhamos saudades um do outro. Não é possível ter-se saudades de alguém com quem estamos sempre. Sem-pre. Quer queiramos quer não, a dinâmica do casal acaba por se ressentir.

Houve outras coisas que pesaram na decisão – posso dizer, por exemplo, que me irritava solenemente ouvir o aspirador nos dias em que a Lena ia limpar a casa, por exemplo. Mas, no geral, foi isto o que contribuiu mais para a minha decisão (ou, pelo menos, é isso o que conto às pessoas, ahahah).

E agora, uma semana volvida, estou convencida de que foi a melhor decisão que podia ter tomado a este respeito. Saio de casa como se fosse para uma dia de trabalho bem longe de casa, apesar de serem só cinco minutos de carro: munida da marmita e saco do ginásio. Chego ao trabalho e, enquanto deixo que o computador acorde, vou acabar de acordar eu com um café. Regresso e trabalho com afinco (já disse que não me distraio) até à hora do ginásio. Depois vou ao ginásio, onde dou um beijinho ao Tiago – afinal não nos vemos há três horas e meia! – e volto para almoçar no escritório. Trabalho até às cinco, mais coisa menos coisa e depois sou toda da família. E é nesse campo onde sinto a maior diferença. Se nos primeiros dias me sentia um pouco perdida (e agora o que faço, meu deus, sem computador nem nada?!?!), agora sinto-me aliviada. Convenço-me de que, se alguém me enviar um e-mail às 18 horas, não estará certamente à espera de receber uma resposta no próprio dia. E se estiver, azarucho. Já fiz o teste de responder só no outro dia de manhã – depois do café – e correu tudo bem. Não houve nenhuma calamidade, não perdi clientes, não fui insultada, não tive nenhuma arritmia. E assim posso concentrar-me totalmente na família, em mim, nos meus hobbies (recomecei a costurar, se bem que ainda não tenha passado da montagem desordenada de retalhos), tenho lido imenso (já vou no terceiro volume da Ferrante) e cozinhado algumas receitas macrobióticas. Sinto-me mais feliz, com as coisas bem divididas dentro de mim. Ainda tenho de treinar a minha consulta compulsiva dos e-mails, mas esforço-me por não responder se não for mesmo urgente. E raramente é.

Creio que isto é algo por que muitos trabalhadores freelancer passam. É uma espécie de ordem natural das coisas necessária até aprendermos o sítio certo de cada coisa, até encontrarmos o nosso lugar entre a casa e o trabalho e nos conseguirmos ver para além do nosso negócio. E quando conseguimos isso é um sentimento de paz profunda. Sinto que cheguei a algum lado.

Um texto sobre abraçar o desconhecido

Ontem saiu o texto que escrevi para a nova rubrica da Aptrad (Associação Portuguesa de Tradutores e Intérpretes). Intitula-se “De tradutora interna a freelancer – uma transição entre modos de vida”, vai ter uma segunda parte e é 100% autobiográfico.

Acho que não sei escrever de outra maneira. Talvez por isso tenha escrito tão pouco aqui ultimamente.

Quando propus este tema à direção da Aptrad fui muito bem recebida, mas não consegui dizer tudo o que me ia na alma num só texto. Daí ter decidido dividi-lo em dois. Demorei vários dias a editá-lo, a quatro mãos. Mas valeu a pena, as críticas de outros tradutores têm sido muito favoráveis.

Podem ir ao site da Aptrad lê-lo e conhecer melhor a associação e o programa de Mentoring. Para vos espicaçar a curiosidade, deixo-vos aqui um excerto:

(…) os primeiros meses não foram fáceis. Se, por um lado, me sentia aliviada e feliz com a minha decisão, contente por ser dona do meu tempo e tomar as rédeas da minha vida, por outro lado, dava por mim a contestar esta mesma decisão. Será que fiz bem? Será que vai resultar? Será que vou ser capaz? Em semanas de maior sufoco, quando os projectos recebidos não davam sequer para pagar a conta da luz, perguntava-me em desespero: “Mas o que foste tu fazer, a deitar assim fora um contrato sem termo pelo vão sonho da independência?” Era nestas alturas que era assombrada por tudo aquilo que tinha ouvido dizer sobre trabalhar por conta própria: “é instável”; “não tens ordenado fixo”, “o mês seguinte é sempre uma incógnita”, “não podes tirar férias”, “tens de trabalhar aos fins-de-semana para conseguires manter um ordenado decente” e outros cenários dantescos.

Créditos: http://iheartyou.pt/