Nós as duas em Berlim

Foi a primeira vez que viajei sozinha com uma das minhas filhas e deixei a outra com o pai. Normalmente, ou viajamos todos juntos ou viajamos a dois, eu e ele, porque precisamos, gostamos, queremos e temos, felizmente, avós com disponibilidade e vontade em ficar com elas. Mas este ano decidi ir viajar sozinha com a Inês. Desde a última vez que fui a Berlim que ela me andava a pedir que a levasse à Alemanha, mas optei por esperar que ela tivesse idade suficiente para se lembrar desta viagem para a poder levar a Berlim, a minha segunda cidade, aquele sítio onde ainda me sinto em casa, mesmo que já tenha mudado tanto.

Foi espectacular. Posso dizer que passei cinco dias sem ralhar, sem gritar, sem ameaçar, sem chantagear, sem pressas nem stresses (ok, aquela vez em que ela se sentiu mal na Legoland e tivemos de vir a correr para casa de táxi e ela vomitou dentro no carro foi um bocadinho stressante). Foram cinco dias perfeitos em que nós as duas andámos completamente sintonizadas, ela andava feliz da vida, super orgulhosa por ter tido o privilégio de viajar com a mamã e super contente por não ter de me partilhar com ninguém. Até acedeu a provar comida crudívora (eu sei, foi esticar a corda) e não fez cara feia ou cuspiu para o prato, como é costume! Provou um pouco de tudo, como eu lhe pedi, e depois disse muito educadamente: Mamã, não gosto lá muito. Posso comer um cachorro quente quando sairmos daqui? E jogas mais um Uno comigo?

E foi assim que, entre muitos jogos de Uno, contagens de paragens e estações de comboio e metro, caminhadas longas sem queixumes e muitas conversas sobre o muro, a guerra e um senhor mau chamado Hitler, passámos cinco dias fantástico em Berlim, só eu e ela, a minha primeira, a minha mais velha.

Enquanto não tenho tempo para escrever um post detalhado sobre o que fizemos com dicas para viajar com crianças (ahaha, sou uma expert, eu!), ficam aqui algumas das fotos dos momentos que marcaram a nossa viagem.

Seis dias nos Açores

Estivemos seis dias nos Açores com os nossos amigos polacos com 4 filhos. Éramos, portanto, dez pessoas, sendo que seis eram crianças dos 2 aos 9 anos. E, apesar de parecer estranho, dado o número de crianças ser superior ao número de adultos, foi espectacular. Vimos muita coisa nova (nós já conhecíamos os Açores) e fizemos coisas fantásticas que incluíram comer cracas – uma espécie de rocha com coisas comestíveis lá dentro – tomar banhos de água quente no mar presos a uma corda em Ponta da Ferraria, estragar os fatos de banhos com a água sulfurosa do Parque Terra Nostra, ver o nosso cozido sair de debaixo da terra, nadar numa piscina natural que era, ao mesmo tempo, um aquário, trepar rochas vulcânicas, andar por “florestas encantadas” e ir desembocar em lagoas de água verde-esmeralda, saltar de uma prancha de 3 metros e sentir-me suspensa numa bolsa de ar para depois cair a pique e achar o máximo, ver como nascem e crescem os ananases dos Açores e ver golfinhos a nadar ao pé de nós. A dinâmica entre casais e crianças foi perfeita. As crianças não se deixaram intimidar pela barreira linguística e brincaram juntas numa língua inventada por elas que não era nem polaco, nem português, nem inglês, mas algo ali no meio, que nos dava vontade de rir, mas permitia-lhes entenderem-se na perfeição. Para as nossas foi também a primeira vez de avião (andar de avião aos dois meses e meio não conta) e foi bastante pacífico. Quando lhes perguntei, depois de chegarmos, do que mais tinham gostado, responderam-me “dos gelados”. Expliquei que gelados podem comê-los em qualquer lado, digam lá do que gostaram mais dos Açores. Sem hesitar, dizem que foi da piscina amarela. E dos gelados, insistem. A Alice, a sorrir, diz ainda que viu muitas girafas e eu pergunto-me: estivemos em universos paralelos ou ela já goza comigo?

Praia nos Mosteiros
Praia nos Mosteiros
Vista do Rei para as Sete Cidades
Perto da Vista do Rei
Furnas
Piscina Termal do Parque Terra Nostra
Parque Terra Nostra
Piscina oceânica da Caloura
Plantação de ananás
Vista para Vila Franca do Campo e o ilhéu
Avistamento de golfinhos, as baleias preferiram não se mostrar, para grande pena nossa…

As minhas outras vezes nos Açores reunidas aqui.

Por estes dias

Eu tenho uma casa no Alto Alentejo, ou melhor, os meus pais têm uma casa no Alto Alentejo que compraram às minhas tias quando a minha avó morreu, por isso acho que um dia a casa vai ser minha. Às vezes venho cá, apesar de a minha filha mais velha dizer que é longe e a casa é velha e não há nada para fazer, o que me deixa muito triste porque, na idade dela, o que eu mais gostava era de vir para esta mesma casa, que dantes era da minha avó e não minha, e era longe e velha e não havia nada para fazer, mas mesmo assim foram os melhores Verões da minha vida. Já mais crescida, viria a sentir-me muito deslocada neste Alto Alentejo, desenraizada e desintegrada, e só depois de adulta lhe viria a reencontrar o encanto.

Este fim-de-semana viemos para cá, sendo que “cá” designa a região e não a casa em si. Sinto-me um bocado mal por estar a vinte quilómetros e não ir dar um beijinho à minha tia, mas seria demasiado complicado explicar agora porque é que ir à vila dar um beijinho à minha tia é uma coisa que não me atrai nada neste momento. Tem a ver um bocado com as mudanças que se dão em nós e nos outros e as explicações que não queremos dar. Além disso a minha mãe faz 69 anos hoje e quis o destino que não estivéssemos hoje juntas. Adiante. Estamos na casa dos pais de uns amigos, mas os pais dos amigos não estão cá, o que não faz grande diferença, pois agora já somos adultos e responsáveis, por isso não vamos ficar na piscina até às dez da noite, nem acabar com as garrafas de uísque que o dono da casa escondeu atrás da enciclopédia, nem deixar que as crianças adormeçam por exaustão em frente à televisão. Nada que nos tenha passado pela cabeça, claro.

Faz um calor como só aqui se consegue sentir. Aquele calor que deixa as ruas desertas grande parte do dia, os estores para baixo e as pernas bambas. Há tarros pendurados à volta da lareira, e panelas de estanho na cozinha, relógios de pêndulo que dão as horas e taleigos pendurados que me fazem lembrar os tecidos que encontrei no baú da minha avó. Há bolo finto na mesa do pequeno-almoço, embora já não tenhamos chegado a tempo para as boleimas. Hoje ao jantar vai haver migas com entrecosto, daquelas migas como eu gosto, de batata com pimentão vermelho e molho do entrecosto, que são muito difíceis de encontrar nos restaurantes e que nunca, mas nunca são iguais às que a minha avó fazia. Nem aquelas que o Tiago um dia fez, a meu pedido, depois de termos ido ao restaurante Sever, em Portagem, nas margens da praia fluvial e no sopé de Marvão, comermos uma tomatada de frango que me transportou no tempo e me trouxe lágrimas aos olhos. Hoje voltámos lá, mas já não serviam a tomatada. Só alhada de cação e sopa de tomate, o que também não me deixou nada mal servida, posso garantir-vos.

De regresso

O pai regressou já elas dormiam. A Alice acorda a meio da noite e assim que o vê, mesmo que estremunhada, levanta os braços e dá-lhe um abraço forte, aconchegando-se no seu ombro quente. Derreteu-se-me o coração, mas voltei para a cama, descansada que agora já tenho o meu backup de volta.

Nas Terras Altas da Escócia

O ano passado fez sozinho a travessia do Mont Blanc. Este ano levou 5 amigos para as Terras Altas da Escócia. Todos os dias telefona por Facetime. As meninas adoram falar com ele e contam-lhe, disputando a posse do telefone, todas as coisas fantásticas que lhes aconteceram nesse dia, alheias às coisas fantásticas que o pai tem feito e visto. A acompanhar as conversas há sempre muitas fotos, a que elas pouco ligam, mas que, a mim, me deixam cheia de inveja. Ainda por cima, lá não há gafanhotos, diz ele, só chuva, muita chuva, e umas minhocas gigantes que caem das árvores. Coitado, já pensa que está na Austrália…