A ternura de Inês

Eu sei, até parece mal. Escrevo um post dedicado à filha mais nova, depois do seu quarto aniversário, e não faço o mesmo pela filha mais velha, depois do seu sétimo aniversário. Não é por mal, claro está, nem por eu gostar menos dela. Foi o raio do final do ano passado e o estranho princípio deste, é ela fazer anos tão perto do Natal e quase não haver espaço para respirar entre festas, foi só ter parado agora para alinhavar ideias e perceber que me faltava algo muito importante para fechar o ano.

A minha Inês, a minha primogénita. A minha companheira das histórias e dos jogos de cartas. A minha companheira de Berlim. Ainda relembro a nossa viagem com todo o carinho de que sou capaz. De tudo o que podia correr bem, correu melhor ainda. Ela revelou ser a pequena companheira perfeita, curiosa e interessada. Lembro-me de uma noite, quando saímos de um restaurante crudívoro, cujo repasto ela recusou delicadamente depois de ter provado algumas iguarias (nem eu estava à espera de mais…

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Leituras de 2018 #1

1. Lucia Berlin, Manual para Mulheres de Limpeza

Demoro-me sempre muito na banca da Alfaguara, na Feira do Livro. Reparei na Lucia Berlin quando já estava a pagar. Confesso que foi o apelido dela que me chamou a atenção. Peguei no livro. Ah, são contos. Devolvi-o ao seu lugar. Não tenho grande paciência para contos, prefiro histórias grandes e complicadas como a vida. A vendedora, no cumprimento do seu dever de aconselhar e vender livros, assegurou-me que, sim, eram contos, mas não eram, porque, juntos, formavam uma espécie de autobiografia e podiam ser lidos como uma só história. Depois olhou para os outros livros que eu estava prestes a comprar e assentiu, em jeito de confirmação, com um leve meneio de cabeça: “Olhe

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Explicar a morte de um animal de estimação às crianças

Passei a semana a temer o momento em que uma das miúdas me perguntasse pelo gato (elas achavam que ele ainda estava internado) ou que lhe fizesse alguma referência inofensiva como “não deixem o frango em cima da mesa por causa do Dexter” que desencadeasse perguntas inconvenientes. Sabia que tinha de lhes contar, mas não sabia como. Recorri à Internet como faço para quase tudo e encontrei um artigo muito útil com uma lista de livros que ajudam a explicar a morte às crianças.
Escolhi o livro “Um gato tem 7 vidas“, da Luísa Ducla Soares, comprei-o e treinei para evitar chorar desalmadamente enquanto lhes lesse a história.

A literatura, de facto, pode ser de grande ajuda nas fases difíceis. Foi a melhor introdução que podia ter escolhido para dar esta notícia triste. Primeiro,

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Recomeços

(Sesimbra, penúltimo dia do ano)

Não sei bem como começar este post. É o primeiro post de 2018 e merecia pompa e circunstância, frases a rolar sobre uma carpete vermelha e confettis a pontuar as palavras. Mas não me sinto própria para festejos e, ultimamente, a minha escrita (sim, recomecei a escrever com caneta e papel) aproxima-se mais da poesia atormentada de uma Sylvia Plath, mas sem a poesia nem a elegância. Ficamos, portanto, só com as tormentas.

O fim do ano foi, assim, atormentado (prometo que já procuro novos adjectivos). Já chorava antes de saber que tinha motivos para chorar.

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Leituras de 2017 #8

24. As Avenidas Periféricas, de Patrick Modiano

Patrick Modiano foi Prémio Nobel da Literatura em 2014, ano em que este livro me foi dado. Confesso que só peguei nele porque era curto e eu queria cumprir o meu desafio de leitura de 24 livros num ano. Não gostei muito, para ser boazinha. Achei a escrita mediana e o enredo totalmente disparatado. Um filho (spoiler) que sofre uma tentativa de homicídio pelo próprio pai e que, mesmo assim, parte à procura dele? Um pai que reencontra o seu filho, mas que não o reconhece? Poderia ser o drama perfeito, mas achei um perfeito desperdício de tempo.

25. Da Mão para a Boca, de Paul Auster

O mesmo já não se pode dizer deste livro. Sim, também peguei nele por ser curto e me permitir cumprir o meu desafio (li alguns livros com mais de 500 páginas e deixei um livro a meio, o que justifica esta pequena batotice), mas Paul Auster é um excelente contador de histórias e em Da Mão Para a Boca relata-nos a sua própria história antes de ser um escritor famoso, plena de peripécias e dificuldades, das quais se vai desenvencilhando com relativa delicadeza, o que só nos faz gostar mais dele.

26. Os Últimos Dias dos Nossos Pais, de Joël Dicker

Quando comecei a ler este livro, tive dúvidas se me teria enganado. Não parecia ser a mesma escrita elegante e entusiasmante de A verdade sobre o caso Harry Quebert ou O Livro dos Baltimore. De facto, o tema nada tem a ver.  Mas o facto de este ter sido o seu primeiro livro, antes das suas obras-primas, justifica o que vou dizer a seguir: Os últimos dias dos nossos pais é um livro ingénuo, com frases infantis e descrições que parecem ter sido retiradas de um livro juvenil. Se nos abstrairmos disto, a coisa até vai. Mas, ainda assim, não consegui livrar-me de um sentimento de desilusão ao longo da leitura. A parte boa é que Dicker se conseguiu afastar deste registo e escrever duas obras esplêndidas a seguir. Valha-nos isso.

E foi assim que, a uma semana do final do ano, consegui cumprir o meu desafio de leitura para 2017: 24 livros. Quem tiver o Goodreads, pode ver todos os livros aqui. Para o ano vou aumentar ligeiramente este número. Quero ler alguns livros com 500 e 600 páginas e alguns clássicos de leitura mais demorada, mas estou bem lançada, por isso acho que não me vou deixar ficar mal.
E vocês, quais são as vossas aspirações em termos de leitura para o próximo ano?