Personagem

Tenho na cabeça uma ideia para uma história. Já lhe engendrei o enredo e delineei algumas personagens. Já escrevi algumas linhas e até desenhei um mapa da vila, que, à falta de imaginação, não difere muito da minha.  Falta-me o fim, o que vai ser um problema, porque nunca me lembro do final dos livros, é como se o importante fosse o durante e não o fim. Mas todas as histórias precisam de um fim, assim como de uma personagem principal. Andava com dúvidas se seria um homem ou uma mulher. Tendia para uma mulher. Seria casada, solteira, divorciada, nova, cinquentona, com filhos, sem? E de que cor seriam os cabelos? E o tom de pele? E o jeito de andar e a forma de falar?

Esta manhã, enquanto esperava pelo café, olhei para a porta no exacto momento em que entrou uma mulher. Cabelos compridos, escuros, ondulados e rebeldes, tez morena, estatura baixa. Nem gorda, nem magra, proporcional talvez, sendo que as roupas simples deixavam antever uma barriguinha descaída. Alças, leggings, chinelos da praia, uma âncora tatuada na parte interior da perna, uma mala de camurça aberta, por onde espreitavam papéis desordenados e uma carteira demasiado cheia. As feições eram bonitas. um pouco exóticas, daquele exótico que tanto passa despercebido como chama a atenção. Os cabelos desalinhados caídos nos ombros e a mala abandonada na mesa enquanto espreitava atenta a televisão, alheia a tudo o resto. Meteu conversa comigo, nada demais, tinha a ver com o que dava nas notícias, e eu soube logo que tinha a minha personagem – que, tirando a tatuagem, era em tudo parecida comigo. Deve ser assim que os escritores encontram os seus alter-egos. Mas eu não sei, que não sou escritora.