Nunca é tarde para nos desafiarmos

Não venho aqui há algum tempo. Bom, não é verdade. Tenho vindo, abro o painel para escrever um post novo, mas não sai nada. Não se trata de writer’s block, mas sim de não saber por onde começar. Primeiro, estive uma semana num retiro budista de meditação e mindfulness e, quando cheguei, levei algum tempo a pôr as ideias em ordem e a reencontrar o meu lugar. Um retiro destes, ou talvez qualquer tipo de retiro, pois nunca tinha feito um, transforma-nos inevitavelmente de alguma forma, mesmo que não nos faça ver a luz, como costumo dizer. Depois disso, andei ocupada com a horta, com o trabalho e, no meio disto tudo, ainda decidi concorrer a um concurso literário. Talvez por isso, por ter canalizado todas as energias na escrita do conto, não arranjei força ou inspiração para escrever sobre a minha vida. Mas, garanto-vos, estou viva e de boa saúde. Tenho uma nova rotina de meditação, encontrei um grupo de meditação que se reúne semanalmente e que me permitiu conhecer novas pessoas muito inspiradoras, tenho trabalhado na horta todos os dias, o que me dá uma sensação de paz incrível (apesar dos gafanhotos que por lá andam, que já não me incomodam como dantes) e a participação no concurso trouxe à superfície um sentimento maravilhoso de superação, de conquista de um sonho de há muito tempo, da certeza de que nunca é tarde para nos desafiarmos. Não tenho quaisquer ilusões de ganhar, acreditem. Mas só o facto de ter concorrido, de ter conseguido escrever um conto que me agradou, do princípio ao fim, para mim significa que já ganhei. E o resto é conversa.

Recomeços

(Sesimbra, penúltimo dia do ano)

Não sei bem como começar este post. É o primeiro post de 2018 e merecia pompa e circunstância, frases a rolar sobre uma carpete vermelha e confettis a pontuar as palavras. Mas não me sinto própria para festejos e, ultimamente, a minha escrita (sim, recomecei a escrever com caneta e papel) aproxima-se mais da poesia atormentada de uma Sylvia Plath, mas sem a poesia nem a elegância. Ficamos, portanto, só com as tormentas.

O fim do ano foi, assim, atormentado (prometo que já procuro novos adjectivos). Já chorava antes de saber que tinha motivos para chorar.

Continue Reading

Personagem

Tenho na cabeça uma ideia para uma história. Já lhe engendrei o enredo e delineei algumas personagens. Já escrevi algumas linhas e até desenhei um mapa da vila, que, à falta de imaginação, não difere muito da minha.  Falta-me o fim, o que vai ser um problema, porque nunca me lembro do final dos livros, é como se o importante fosse o durante e não o fim. Mas todas as histórias precisam de um fim, assim como de uma personagem principal. Andava com dúvidas se seria um homem ou uma mulher. Tendia para uma mulher. Seria casada, solteira, divorciada, nova, cinquentona, com filhos, sem? E de que cor seriam os cabelos? E o tom de pele? E o jeito de andar e a forma de falar?

Esta manhã, enquanto esperava pelo café, olhei para a porta no exacto momento em que entrou uma mulher. Cabelos compridos, escuros, ondulados e rebeldes, tez morena, estatura baixa. Nem gorda, nem magra, proporcional talvez, sendo que as roupas simples deixavam antever uma barriguinha descaída. Alças, leggings, chinelos da praia, uma âncora tatuada na parte interior da perna, uma mala de camurça aberta, por onde espreitavam papéis desordenados e uma carteira demasiado cheia. As feições eram bonitas. um pouco exóticas, daquele exótico que tanto passa despercebido como chama a atenção. Os cabelos desalinhados caídos nos ombros e a mala abandonada na mesa enquanto espreitava atenta a televisão, alheia a tudo o resto. Meteu conversa comigo, nada demais, tinha a ver com o que dava nas notícias, e eu soube logo que tinha a minha personagem – que, tirando a tatuagem, era em tudo parecida comigo. Deve ser assim que os escritores encontram os seus alter-egos. Mas eu não sei, que não sou escritora.