Abrandar. Parar. Respirar.

Já sabem que o ano, para mim, não começou da melhor maneira. Mas a morte do Dexter foi apenas a gota de água porque, na verdade, não me tenho vindo a sentir no melhor de mim desde há alguns meses. Na altura, andei por vários médicos, convencida de que algo de errado se passava com o meu corpo.  Mas para além de uma bexiga hiperactiva (que já me dá que fazer) e uma insulino-resistência perfeitamente controlada, eu estou de perfeita saúde. As oscilações de humor não podem ser justificadas com a tiróide e também não será a tendinite a desprover-me de toda a vontade própria. Tenho muitos dias em que me esforço por me manter à tona de água, como já o disse aqui, e, se pudesse, passava os dias deitada a ler. Há dias que nem isso, tal é a desvontade que se me acomete.

Felizmente, não sou pessoa para me deixar andar e costumo ter muita noção de mim própria. Autoconsciência. Tentei diagnosticar o problema, mas acabei por me afundar na culpa de achar que não tenho razão para me sentir deprimida. Tenho uma boa vida. Tenho a profissão que sempre quis, gosto do que faço, sou bem-sucedida e confio nas minhas capacidades. Tenho uma casa confortável com espaço exterior. Não apanho trânsito para o trabalho, não passo muito tempo a conduzir. Tenho duas filhas lindas e saudáveis. Tenho um marido maravilhoso. Não sou rica, mas também não ando a contar os tostões, o que me permite não estar sempre preocupada com questões financeiras. Tenho uma boa relação com a maior parte das pessoas que são importantes para mim: família, amigos, comunidade da vila. Estou integrada e gosto de viver aqui. Tenho hobbies e interesses, viajo de vez em quando e até tenho uma horta. Pergunta para queijinho: então, o que me falta?

Pensei muito nisto e a única conclusão a que consigo chegar é: não me falta nada. Tenho é coisas a mais. Com coisas, não estou só a falar de coisas materiais, mas também. As coisas físicas, a roupa, a tralha, a desarrumação, complicam-me com os nervos e pesam-me na rotina. Penso frequentemente que, se tivéssemos menos roupa, com certeza eu teria menos roupa para lavar, dobrar, arrumar. Se as miúdas tivessem menos brinquedos, desarrumariam menos. É este o raciocínio. Mas estou também a falar das coisas abstractas que me ocupam os tempos livres, como eventos, compromissos e actividades. Às vezes leio artigos sobre isto de andar sempre a correr, de querer ir a todas, de ter de fazer um visto em tudo. Connosco dá-se o caso de termos muito amigos (e que tal se desses graças por isso?) que gostam de estar sempre em festa, mas também se dá o caso de acabarmos por sermos nós a organizar muitos convívios em nossa casa. São as festas de anos, é a sardinhada atual, foi o Magusto na Horta, ou, às vezes, só porque sim. Não é preciso referir a parte boa disto, as vantagens que há em estarmos sempre rodeados de amigos. Mas há o reverso da medalha que é o trabalho que isto dá: o antes, o durante e o depois. Antes, é preciso preparar a comida e arrumar o espaço. Durante é preciso garantir que a comida chega, ir repondo os talheres e os guardanapos, ir recolhendo os copos sujos, ir buscar mais gelo, confraternizar nos entretantos, como boa anfitriã. Depois, a parte mais chata, é preciso limpar, lavar a loiça, arrumar. Às vezes, demoramos alguns dias nesta fase… Enquanto que o Tiago faz isto tudo com uma perna às costas, sendo um organizador de eventos nato como é, eu não. É quase sempre uma fonte de stress. Algumas coisas já vão sendo automáticas, claro, mas tanta festa começa a pesar-me, confesso. Quero continuar rodeada de amigos, sim, mas não precisa de ser com tanta frequência, nem precisa de ser sempre cá em casa.

O mesmo se aplica a outros eventos sociais. O Tiago diz-me sempre que, se as pessoas nos convidam, é porque fazem questão que nós vamos. Claro que sim, percebo isso perfeitamente. Mas quando isso implica desdobrarmo-nos em três para comparecermos a três eventos num só dia (sim, já aconteceu…), não será um bocadinho demais? E o nosso tempo em família, a quatro? E o tempo passado em casa, simplesmente a descansar, a brincar ou a arrumar a roupa (tinha de vir…)? Num destes eventos organizados por nós, houve duas pessoas que não vieram pela simples razão de precisarem de descansar e ficar em casa. Foi esta a razão que me deram e não tenho motivos para duvidar da sua validade. Aliás, confesso que fiquei invejosa. Eu também preciso de ficar em casa a descansar, pensei eu, mas não tenho coragem de o dizer como justificação para não comparecer a um evento. Mas os amigos devem compreender estas coisas, certo? Os amigos compreendem que não somos super-heróis dotados com o poder da omnipresença.

Há tempos mandaram-me um artigo em alemão sobre o stress dos tempos livres. É uma contradição, diz o autor, que o tempo que usamos para recuperarmos do stress do dia-a-dia acabe por ser, afinal, uma fonte de stress adicional. Achei piada à comparação que ele faz entre tentar marcar um encontro com um amigo e arranjar consulta para o ortopedista: ambos só têm vaga daqui a seis meses! Já me aconteceu olhar para a agenda e perceber que tenho todos os fins-de-semana ocupados durante os próximos três meses. Tem mesmo de ser assim? Deixa de haver espaço para a espontaneidade, para fazer o que nos dá na gana, para passarmos a tarde a fazer trabalhos manuais, para nos demorarmos aqui e ali ou ir ver uma exposição que acabou de inaugurar. Tem mesmo de ser assim ou será que podemos encontrar um equilíbrio entre os eventos sociais e a necessidade individual de espaço para nos libertarmos de horários e calendários, da pressa, das obrigações? Afinal, o nome “tempos livres” indica precisamente isso: liberdade, inexistência de obrigações, direito à escolha, simplesmente estar.

Atenção: com este discurso todo, pode não parecer, mas é claro que eu aprecio o tempo passado entre amigos, mesmo que isso implique uma correria constante. É como diz o autor do tal artigo alemão: o problema não são os outros, o problema sou eu, porque não tenho coragem de dizer não, de dizer que também preciso de tempo para mim. Temos medo de desiludir os amigos ou que eles deixem de nos convidar. Ou, então, somos daqueles que sentem a obrigação de fazer qualquer coisa. Não temos planos para sábado à noite? O horror, o caos, a calamidade! Sim, quando tens 20 anos. Mas quando tens 37, duas filhas, uma agenda cheia e, de repente, te apercebes que as miúdas vão dormir à avó, o teu marido foi de viagem e tu não tens planos para sábado à noite, como é? Aconteceu-me a semana passada. E sabem o que é que eu fiz? N-a-d-a. Absolutamente nada. Fiquei em casa, cozinhei, vi 3 episódios seguidos de uma série e fui para a cama ler até o livro me cair em cima da cara. E soube-me tão bem!

Posto isto, tenho pensado muito neste assunto. E sinto que, volvidos 25 dias do início do novo ano, encontrei o meu objectivo para 2018: abrandar, parar, respirar. Não necessariamente por esta ordem, mas talvez haja uma lógica em seguir esta ordem. Sinto que é aquilo de que preciso neste momento. Tenho lido algumas coisas sobre isto de viver em modo lento, descobri blogues novos que me inspiram, e já delineei um plano mental para conseguir alguma calma na minha vida. Já pus em prática algumas coisas, outras ainda estão para vir, outras serão um work in progress permanente. Gostaria de falar sobre elas num outro post, para não vos maçar que este já vai longo. Espero ter tempo, ia agora dizer. Oh, mas é claro que irei ter tempo. Afinal, o ano ainda agora começou e eu (já) não tenho pressa.

Aqui e agora

No outro dia estive com uma amiga que não via há demasiado tempo. Daquelas pessoas com quem nos identificamos quase na totalidade, mas que as circunstâncias da vida nos separaram os caminhos, o que não é nada justo, mas a vida nem sempre o é. Adiante. Dizia que estive com uma amiga querida que não via há demasiado tempo. Quis o destino, fazendo de conta que acredito nestas coisas, que prolongássemos o almoço e acabássemos por passar o dia juntas, sentadas na varanda senhorial da sua nova casa, debruçada para os quintais de Algés, com olho no rio azul e nas corridas de veleiros, a beber um bom vinho tinto, enquanto as crianças se entretinham lá dentro com brincadeiras várias.

Como é próprio destes encontros, pusemos a conversa em dia. Então, como estás, o que tens feito, as crianças, o trabalho, novidades. Contou-me que está quase crudívora, mas que os almoços constantes com a chefe não lhe permitem abraçar a nova dieta a tempo inteiro, que bebe sumos verdes de manhã e come saladas à noite, que começa o dia a contemplar o pôr-do-sol numa espécie de meditação improvisada enquanto as crianças ainda dormem e a água quente com limão arrefece, e que tenta, tanto quanto o trabalho lho permite, levar uma vida simples e descomplicada. Nada disto me surpreendeu, nada disto me impressionou. Esta minha amiga sempre foi assim, frugal, simples e discreta, com vontade de levar uma vida descomplicada, apegada aos filhos, à família, amante das coisas boas da vida, sendo que se fala aqui de experiências, do tempo que se passa com os amigos, e não de coisas materiais. Atrás de mim, a sala, os quartos, a cozinha, que adorei, adorei todos os cantos daquela casa, eram despojados de superficialidades. As crianças tinham espaço para andar de trotineta e correr à vontade, na sala havia espaço para abrir uma tenda de índios e na brancura das paredes e nos espaços vazios em cima das coisas estava suspensa uma sensação boa de indefinição, de espaço que aguarda ser preenchido por novas experiências, novas memórias. Espaços amplos e brancos que davam uma sensação de espaço, passo a redundância – espaço para respirar, espaço para viver. Mas ainda assim, nem foi isso o que mais me impressionou. O que me impressionou realmente nela, no casal, foi a sua capacidade de estar presente, uma interpretação tosca do conceito de mindfulness. Não sei explicar como senti isto. Apenas senti que a minha amiga esteve sempre presente não só nas conversas comigo, como em cada intervenção dos filhos, numa entrega pessoal total e desinteressada. Na mesa onde colocávamos os copos de vinho, o único telemóvel era o meu, para o qual ia espreitando ocasionalmente, não se fosse dar o caso de receber uma mensagem de importância nacional num feriado (bom, na verdade, estava à espera do telefonema de outra amiga, mas se o telefone tocasse iria ouvi-lo bem, não precisava de estar sempre a espreitá-lo). Quando me apercebi disto, já em casa, ao pensar no dia maravilhoso, tive vergonha de mim. E invejei-a. Aí, sim, invejei-a realmente, pelo desapego genuíno que eu, sabendo que não o tenho em mim, apenas me esforço por cultivar. Depois lembrei-me de outros momentos passados com esta minha amiga e comecei a juntar as peças do puzzle. Ao final do dia, quando chega a casa com os filhos, tira o som do telemóvel e guarda-o na mala. Só volta a pegar nele no outro dia de manhã. As más notícias fazem-se sempre anunciar, mesmo com o telemóvel escondido, por isso não há nada que seja assim tão importante que não possa esperar pelo outro dia.

Ontem, tentei fazer o mesmo. Tirei o som do telefone e escondi-o durante duas horas e meia. Só voltei a pegar nele depois de deitar as miúdas e, se ao princípio tive vontade de o ir espreitar, no final já quase me esquecia. Não sei como chegámos a este ponto, ao ponto de ser preciso fazer uma desintoxicação digital, dos telefones, da partilha impessoal de ideias e fotografias com pessoas com quem não temos vontade de combinar nada pessoalmente, mas com quem temos uma interacção quase diária no mundo digital. Não sei como chegámos ao ponto em que precisamos de desligar o telefone durante duas horas e meia para sentir que estamos presentes durante o jantar, para darmos atenção aos nossos filhos sem distracções, para nos focarmos no que é realmente importante. Não sei como chegámos a este ponto, mas é recente. Se pensarmos bem, não tem mais de dez anos esta coisa de andarmos com o mundo dentro do bolso. Passa tudo tão depressa ultimamente. Mas nós temos o nosso lugar no mundo, não precisamos de querer estar em todo o lugar a toda a hora. O nosso lugar é apenas aqui e agora. E com esta me fico.