Ano novo com velhas angústias

Substituíram as lâmpadas dos postes de iluminação lá da rua. Agora, as lâmpadas LED refletem uma sombra rendilhada nas paredes das casas. É quase poético, não fosse eu ficar sempre parada a olhar para elas, na vã esperança de ver a gata vir lá de onde desapareceu.

O balde do lixo da cozinha, cuja tampa não fecha bem, tem feito uns barulhos estranhos ao fechar, que se parecem ao barulho que fazia a portinhola da gata a abrir e a fechar. Tenho uns quantos sobressaltos por dia.

Ainda não arrumei as suas coisas, o arranhador, o banquinho de onde vigiava a rua, o comedouro. Mas já não encho o comedouro todas as noites, para o caso de chegar a casa faminta. Há outro gato que descobriu como entrar pela portinhola para lhe comer a ração. Não preciso de mais falsas esperanças de manhã, quando chego à cozinha, e vejo o comedouro vazio, mas nem sinal dela. E o gato, esse, tem quem cuide dele.

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Redundâncias

Deixámos as miúdas na avó e fomos jantar fora a Lisboa com um grupo de amigos. O restaurante era bom, mas a comida, pouca e o vinho, demasiado caro. Escolhi um ceviche de atum com manga e malagueta que estava uma coisa do outro mundo e fez sucesso na ala feminina. Já os homens gostaram mais do entrecôte, que não estava mau, mas era dispensável. Nunca vou entender a necessidade dos portugueses de pontuar sempre uma refeição com carne.

Depois do jantar, devíamos ter ido embora, mas aliciaram-nos a entrar na Pensão Amor, o que me valeu 3 Baileys que me foram trazendo sem que precisasse de os pedir e vários pensamentos inúteis sobre a vida. Diante de mim, do outro lado da sala, estava uma estante cheia de livros, com uns poucos destacados por lâmpadas tímidas. Entre eles, li os títulos Helga e Prazeres do Sexo, o que me pareceu redundante.

Redundante pareceu-me também a fauna que se saracoteava ao som da música de merda que deu até nos expulsarem da sala. Fecharam a porta logo atrás de nós, e no caminho até ao carro começaria a insinuar-se a inevitável dor de cabeça.

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Terraços

Viemos a Sintra ver uma tia que já treme muito das mãos, baralha os nomes, mas ainda tem conversa daquela que parece nunca acabar. Receberam-nos na entrada, de onde não passámos. Sempre pensei que as casas de repouso mais condignas tivessem uma espécie de sala de visitas, ou uma marquise onde batessem os últimos raios do sol da tarde. Mas não foi o caso. Por sorte, antes de lá chegarmos, passámos por um terraço feérico, típico daquela zona, que deve fazer as delícias aos contadores de histórias. Também gostava de ter um terraço assim na minha casa, mas para isso era preciso ter requinte, disponibilidade e dinheiro. Infelizmente, não tenho nenhuma das coisas nas doses necessárias.

Onde moro, as casas não são nada feéricas. São feitas, quadradas e pouco adornadas. Há algumas engraçadas, mas nem sempre pelos melhores motivos. A casa em frente não é das piores, tem um grande jardim com uma romãzeira e uma nespereira, mas as árvores não dão bons frutos e o jardim está sempre descuidado.

Numa destas noites em que me levantei às duas da manhã para vomitar, vi pela janela da casa de banho o vizinho da frente sentado no seu terraço. Não me pareceu que estivesse a beber, ou a fumar, ou a ler ou sequer a olhar para o telemóvel. Estava só ali, às escuras, a olhar para a noite.

Lembrei-me de que não lhe via a família há algum tempo. Percebi que talvez estivesse sozinho e triste. Tive pena dele. Mesmo estando eu naquele momento de vómito na boca, achei que ele estaria bem pior do que eu.

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A magia do Natal

Vomitei durante a noite. Foi a segunda noite consecutiva que vomitei o jantar. Calhou comer sempre bacalhau e eu, como não é prato que aprecie muito, decidi que passei a ser alérgica, mas o homem diz que isto é dos nervos.

De manhã, de estômago esvaziado, acordei com fome e lembrei-me de fazer fatias douradas. Entre hoje e a última vez que as comi passaram-se duas décadas. Resolvi, assim, iniciar uma nova tradição: a das fatias douradas na manhã do dia de Natal. Eu achei que ficaram muito boas, as de broa então… Mas entre as miúdas as opiniões dividiram-se. Para o ano, tento de novo.

O Natal passou-se e já passou. Sempre pensei que me dispensaria uma das suas magias, como vemos nos filmes, mas a Olívia ainda não apareceu. Em vez disso, deu-me uns atoalhados rendados e pintados à mão para os quais não tenho espaço nos armários nem na vontade de os usar, uma coleção de pratos, travessas e tigelas da couve da Bordallo Pinheiro, para os quais tenho muita vontade de usar, mas me falta o espaço, e um livro e alguns cosméticos que nunca me lembraria de comprar para mim, mas que me parecem prometedores.

Acabarei o ano triste e enjoada, mas bem cheirosa.

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Consoada

É véspera de Natal.

As desvantagens de fazer a consoada na nossa casa é o trabalho que se tem e o dinheiro que se gasta. Mas o trabalho equilibra-se com a seleção do menu à nossa medida (vetei o Bacalhau com Todos) e com a estreia de roupa que não envolva necessariamente golas altas e forros polares, porque, cá em casa, sei que não vou ter frio. Já estive, assim, de vestido primaveril, a engomar a toalha de Natal, que a minha mãe bordou e me deu uns quantos Natais atrás, e os guardanapos de pano. O meu sentido, no entanto, está todo na Olívia, a nossa gata, que não vem dormir a casa há duas noites. Nunca pensei voltar a passar por isto, não com ela, que era tão caseirinha. Acho que alguém a levou, mas não quero pensar que, para fazerem o Natal feliz a uma criança, estragam o Natal a outras duas. Prefiro acreditar que ela foi só namorar, ou que ficou fechada numa garagem e que, não tarda, hão de dar por ela. Já afixámos cartazes, já pus anúncios, já contactei as associações da zona. Dou várias voltas pelas redondezas ao longo do dia e, de galochas calçadas, já me enfiei no caniçal em frente à casa. De carro, olho para as bermas, para a beira do lixo, ao lado dos contentores. Sei que isto pode não ter um final feliz.

É claro que, às pessoas, apetece-me fazer ghosting. Porque há sempre tantos julgamentos quando um animal se perde ou se magoa, sempre tantas acusações contra os donos que os deixam viver livres, que se recusam a prender gatos em casas nas quais as portas estão quase sempre abertas e nas quais, para que os donos possam entrar e sair como lhes aprouver, seria necessário fechar os animais em quartos, em jaulas. Sempre soube que era um risco que corria, já perdi uma gata assim. Então, e não aprendeste? E as pessoas, quando é que aprendem a meter-se na sua vida? Talvez o Pai Natal lhes dê um pouco de capacidade de não julgamento no sapatinho. Quanto a mim, para o Natal, só quero a minha gata de volta, não há prendas nem banquetes nem vinho que me consigam amenizar a angústia.

Agora, vou comer uma filhós. Só para não sentir que me falta tudo.

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